8 de setembro de 2017

Fogueira


[...] Eu me jogo ao fogo e me vejo queimar. Eu sinto a dor, sinto o odor, a carne derretendo e o coração endurecendo - ao mesmo tempo em que falha. Mas é hipnotizante, quase como um vício. E não consigo me mover. De repente, a fogueira é meu lugar e eu luto pra não ser lenha. [...]

esse é um trecho de algo que escrevi, mas foi a parte que achei mais legal. As metáforas são vagas, mas o legal é que cada um entende de uma maneira, né? beijo <3

8 de junho de 2017

Bradicardia



Querido Coração,

Com licença, você está aí? Digo... ainda bate? Sei que sou a última pessoa que você desejaria ver, mas é que posso ver como está: machucado. Doendo. Desistindo. E embora não pareça, sua respiração me preocupa. 

Sou a culpada pelos seus últimos hematomas; talvez por todos. Eu te coloquei em posição vulnerável, deixei que você ficasse confortável e, quando senti o baque, te tranquei. Como se fosse resolver alguma coisa... Tive as melhores intenções, juro. Mas não foi o suficiente pra parar as dores porque, assim como ninguém mais entrou, ninguém mais saiu. E o Cérebro não consegue esquecer, daí geralmente sobra pra você.

Pra gente, na verdade.

Mas não posso me fazer de vítima junto. Quando você está se levantando, limpando o sangue da boca, eu insisto em voltar ao ringue ainda tonta. E já perdi a conta de quantas vezes fiz isso.

Eu só queria dizer que sinto muito. Nos dois sentidos - afinal, você mora em mim. Juro que estou tentando achar a chave da prisão de tortura em que te coloquei.

Já quanto ao Cérebro... aí é outra história.

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texto inspirado na música

9 de abril de 2017

Era?




Hoje eu chorei. Gritei, rangi os dentes e esperneei com Deus e o silêncio. Ouvindo a nossa música.

Sabe o que é? É que parece que me doei tanto que, quando acabou, você levou tudo de mim consigo. E não sobrou nada. Ou, pelo menos, os pedaços que sobraram - já diminutos por si mesmos - ficaram quebrados em milhares de outros pedacinhos. 

E me dói te ver inteiro, entende? Dói que você não voltou atrás. Dói que dói em mim, mas não em você. Teria eu vivido tudo aquilo sozinha?

Não, não é possível. Tomei conta de me beliscar enquanto tudo estava bem, só pra ter certeza de que era verdade. E era. E era! Você também olhou nos meus olhos e falou as três palavras.

Infelizmente, nunca pude beliscá-las.

19 de março de 2017

Eu tinha feito o seu café



Eu tinha feito o seu café da manhã. Tinha posto a toalha, os pratos e a sua xícara preferida na mesa, seu lugar à frente do meu (como sempre). Iogurte e frutinhas separados em tigelas diferentes, do jeito que você gosta, e pão na chapa em mais outro prato. E sentei a esperar.

Cinco, dez, quinze minutos e nada. Estranhei. Já passava da hora de você ter acordado.

Tudo bem. Despertar-te-ia com um beijo, então.

Foi o que tentei fazer.

Beijei a pontinha do seu nariz, o que costumava te fazer sorrir. Fiz cócegas abaixo das suas costelas, seu ponto mais fraco. Chamei com carinho, chamei mais alto, gritei. Dei play naquela música que você odeia; àquele ponto, só queria uma reação, uma resposta. Só queria que acordasse, mesmo que fosse pra berrar pra que eu desse pause. Nada. Mas eu estava determinada.

Enquanto isso, a comida esfriava. 

E quando me dei conta, parei. Nunca gostei de café frio.

Saí do quarto pensando em comer tudo gelado mesmo, mas não. Não degustaria maus sabores só porque você não quis levantar. 

Mesmo assim, me dava uma dor ver a comida que fiz sendo desperdiçada. Tanta gente passando fome lá fora!

Por isso, requentei tudo e engoli por dois uma última vez - com uma promessa silenciosa de que, dali em diante, só cozinharia pra quem não fosse deixar esfriar.