8 de junho de 2017

Bradicardia



Querido Coração,

Com licença, você está aí? Digo... ainda bate? Sei que sou a última pessoa que você desejaria ver, mas é que posso ver como está: machucado. Doendo. Desistindo. E embora não pareça, sua respiração me preocupa. 

Sou a culpada pelos seus últimos hematomas; talvez por todos. Eu te coloquei em posição vulnerável, deixei que você ficasse confortável e, quando senti o baque, te tranquei. Como se fosse resolver alguma coisa... Tive as melhores intenções, juro. Mas não foi o suficiente pra parar as dores porque, assim como ninguém mais entrou, ninguém mais saiu. E o Cérebro não consegue esquecer, daí geralmente sobra pra você.

Pra gente, na verdade.

Mas não posso me fazer de vítima junto. Quando você está se levantando, limpando o sangue da boca, eu insisto em voltar ao ringue ainda tonta. E já perdi a conta de quantas vezes fiz isso.

Eu só queria dizer que sinto muito. Nos dois sentidos - afinal, você mora em mim. Juro que estou tentando achar a chave da prisão de tortura em que te coloquei.

Já quanto ao Cérebro... aí é outra história.

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texto inspirado na música

9 de abril de 2017

Era?




Hoje eu chorei. Gritei, rangi os dentes e esperneei com Deus e o silêncio. Ouvindo a nossa música.

Sabe o que é? É que parece que me doei tanto que, quando acabou, você levou tudo de mim consigo. E não sobrou nada. Ou, pelo menos, os pedaços que sobraram - já diminutos por si mesmos - ficaram quebrados em milhares de outros pedacinhos. 

E me dói te ver inteiro, entende? Dói que você não voltou atrás. Dói que dói em mim, mas não em você. Teria eu vivido tudo aquilo sozinha?

Não, não é possível. Tomei conta de me beliscar enquanto tudo estava bem, só pra ter certeza de que era verdade. E era. E era! Você também olhou nos meus olhos e falou as três palavras.

Infelizmente, nunca pude beliscá-las.

19 de março de 2017

Eu tinha feito o seu café



Eu tinha feito o seu café da manhã. Tinha posto a toalha, os pratos e a sua xícara preferida na mesa, seu lugar à frente do meu (como sempre). Iogurte e frutinhas separados em tigelas diferentes, do jeito que você gosta, e pão na chapa em mais outro prato. E sentei a esperar.

Cinco, dez, quinze minutos e nada. Estranhei. Já passava da hora de você ter acordado.

Tudo bem. Despertar-te-ia com um beijo, então.

Foi o que tentei fazer.

Beijei a pontinha do seu nariz, o que costumava te fazer sorrir. Fiz cócegas abaixo das suas costelas, seu ponto mais fraco. Chamei com carinho, chamei mais alto, gritei. Dei play naquela música que você odeia; àquele ponto, só queria uma reação, uma resposta. Só queria que acordasse, mesmo que fosse pra berrar pra que eu desse pause. Nada. Mas eu estava determinada.

Enquanto isso, a comida esfriava. 

E quando me dei conta, parei. Nunca gostei de café frio.

Saí do quarto pensando em comer tudo gelado mesmo, mas não. Não degustaria maus sabores só porque você não quis levantar. 

Mesmo assim, me dava uma dor ver a comida que fiz sendo desperdiçada. Tanta gente passando fome lá fora!

Por isso, requentei tudo e engoli por dois uma última vez - com uma promessa silenciosa de que, dali em diante, só cozinharia pra quem não fosse deixar esfriar.

24 de fevereiro de 2017

Fluxo de consciência



...o jeito como ele sorri com o canto da boca. Como ele me olha. Como me abraça e como me puxa pra mais perto. Como mexe no cabelo, como afasta o meu, como imita cena de filme pra ser romântico e como me tira pra dançar sem música. Como fica lindo concentrado. Como me pede pra explicar português, geografia, matemática e qualquer outra coisa que não tenha entendido, tímido com medo de incomodar. Como sorri quando faço cafuné, como pede mais e como põe a mão na minha nuca - mesmo eu dizendo “não” - pra me beijar. Como ele faz sotaque britânico, como engrossa a voz quando faz isso, como imita o Pato Donald e como fala engraçado com os pais. Como se veste, como se empolga, como vira de lado quando sorri. Como morde o meu lábio. Como fica sem graça quando o desarmo. Como já não consegue mais ficar ereto depois de 5 segundos e como é mais alto que eu. Deitar a cabeça no ombro dele. Isso é muito bom. Eu poderia dormir assim… tenho que tomar cuidado pra isso não acontecer um dia. Será que eu já fiz alguma maquiagem estranha e ele reparou? Será que eu já fiz alguma coisa que deixou ele chateado e não percebi? Gente, socorro. Será que naquele dia…? Não, acho que não. Será? Ele teria me dito. SERÁ??? Não, calma. Não. Mas ah, aquele sorriso…


Este texto representa o pensamento de alguém apaixonado. As reticências no começo e no final dão ideia de "pensamento ou ideia que ficou por terminar e que transmite, por parte de quem exprime esse conteúdo, omissão de algo que podia ser escrito, mas que não é". O alinhamento do texto, não justificado, dá ideia de desorganização e a falta de conexão entre os "pensamentos", que se atropelam uns nos outros, também vem pra passar essa ideia. Ei, e pra você que leu até aqui e/ou comenta: obrigada!