2 de fevereiro de 2017

Como salvar uma vida

Letter, vintage, and writing image
weheartit
Leia ouvindo:


Querido,

Como você está? Tudo bem? Espero que sim. Dia desses, revirando minhas coisas, achei uma daquelas cartas que te escrevi e nunca enviei.

"Daquelas". Como se você soubesse da existência delas - e como se esta não fosse mais uma.

Lembra de quando eu te contei da faculdade e do cachorrinho novos? Acho que foi na carta de ontem. Ou foi na de anteontem? Droga. Não sei mais onde as coloquei. Claro que você não lembra, nunca soube! Que cabeça a minha. Mas isso não me impede de fingir que sim, nem de imaginar suas reações. Provavelmente teria me abraçado forte e feito aquela cara boba que é só sua. E se interessado mais pelo cachorrinho, fazendo piada porque "não era surpresa nenhuma que eu passaria".

Na verdade, desculpa, não sei bem se já te contei. De qualquer maneira, passei pra Engenharia Civil na USP. Era meu sonho! Eu não parava de falar disso, você deve lembrar. Até disse que iria valer a pena o tempo a mais de cursinho. Tava certo. Já deve estar entrando no terceiro período de Arquitetura. Ainda estão de pé aqueles planos de trabalharmos juntos?

Sabe, já tá ficando chato só eu falar da vida. Sinto que não sei nada da sua. Que tal falar um pouco?

Ha ha. Pelo menos tentei.

Eu tentei, tentei mesmo. Enviei algumas cartas de verdade pra um endereço no qual julguei poder te encontrar. Liguei inúmeras vezes pra um número que achei ser seu - tanto que acho que fui bloqueada. Agora só dá caixa postal. Te segurei pelo braço sempre que havia menção de ir embora e pedia pra ficar mais um pouco. Até quis te seguir da última vez, mas não pude. Não tive coragem.

Em minha defesa, não sou nem estou louca. Estou plenamente sã. Estaria louca se não fizesse isto, se não falasse contigo de alguma forma. Foi a única maneira que encontrei de te manter aqui. Nada comparado àqueles abraços de urso, mas é alguma coisa.

Não aceito aceitar os fatos. Você acha justo? Não me importa que a vida seja assim, como você provavelmente diria. Queria salvar a vida que a gente tinha. A vida que a gente quis ter. A vida que a gente poderia ter tido.

Mas como se salva o que já morreu?

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pra entender o texto:
A mistura da foto com a música (essa e mais outras, na verdade) me inspirou a fazer esse texto, que requer um pouco de explicação: na verdade não se sabe se é pra alguém que de fato morreu ou se é alguém que de repente sumiu. Várias pistas deixam espaço pras duas interpretações. E a remetente já está em estágio de delírio, com o senso cronológico abalado, negando estar louca e até se contradizendo ("claro que você não lembra [...] você deve lembrar"). Escreve essas cartas há, provavelmente, quase um ano todo dia. Também ficam implícitas quais memórias realmente aconteceram e quais ela imagina, oscilando entre um e outro. Acho que é isso. Adoraria ver as interpretações de vocês nos comentários. Ah! Perdoem minha oscilação entre segunda e terceira pessoas do singular. Beijo!

8 comentários:

  1. O texto é tão carregado de sentimentos que eu nem percebi tua "oscilação entre segunda e terceira pessoas do singular". Sério. Eu tô bem abalada com isso agora, principalmente por estar lendo pela manhã. Sinto que meu dia inteiro vou ficar pensando nisso. E a minha interpretação é simples: saudade. A falta que a pessoa faz. Creio que não muito diferente do que tu pensou, mas é isso. Desculpa esse comentário prolixo e imenso, é que eu ainda não consegui organizar minhas ideias perfeitamente.

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    1. Desculpa :( e nada de pedir desculpas pelo tamanho do comentário: eu amei. <3 Also a tua interpretação faz todo sentido, parando pra pensar...

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  2. O texto ta cheio de sentimentos e, embora eu tenha ficado confusa sobre o que aconteceu, fiquei curiosa para saber a SUA interpretação (afinal, foi você quem escreveu hihihih) sobre o que aconteceu: ele foi embora ou morreu?
    Na minha imaginação romantizada por fatos da minha vida, ele simplesmente foi embora e os delírios não passam de uma imensa saudade que ela sente de como a vida deles era, ou podia ser, mas que nunca ou não deixou-se ser por muito tempo. Eu amo seus textos e essa confusão com o leitor só me deixa ainda mais excitada com suas palavrinhas!
    Obrigada por me permitir ler esse lindo e confuso texto (positivamente falando) nesse dia cinzento :)

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    1. Ah, Ste, obrigada digo eu por se envolver com os meus textos <3
      Adorei a tua interpretação, e é bem isso a minha também. Na verdade, por mais estranho que pareça, eu também não sei. A personagem se desenvolveu pra além do meu controle (!). Não quero ser mórbida, mas dá um ar mais dramático pensar que ele morreu. "Até quis te seguir da última vez, mas não pude. Não tive coragem." Ela se mataria por ele, pra "estar" com ele. Enfim, muitas divagações! Mas de fato, acabou ficando tão forte que, cada vez que releio, sinto uma facada no coração.

      Obrigada de novo por ler e comentar!!!

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  3. Confesso que quase chorei (a música ajudou) e fico muito, muito, muito feliz em poder ler esses teus textos maravilhosos (aliás, obrigada em compartilhar esse talento). Imagino eu, que a pessoa tenham morrido de fato (talvez tenha influência do filme "To save a life") e a nossa protagonista simplesmente não consegue aceitar isso, não aceita que a vida que eles teriam juntos foi roubada dessa forma. Mas em todo caso, esse mistério é muito bom, já que eu vou ter sobre o que pensar até sair o teu próximo texto!
    Acho que já te falei isso, mas tu tem um talento gigantesco pra escrever! Talvez uma das muitas "missões" que nosso Pai te deu foi levar um pouco de "poesia" pra vida das pessoas...
    Obrigada :)

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    1. AW, LINDA! confesso que eu também quase choro relendo! Muito, muito obrigada por ler. Também ˜gosto˜ de pensar nele como morto de fato. Fica mais dramático e dá ainda mais base pro nível de delírio dela, mas de qualquer maneira as duas situações são igualmente dolorosas e imagináveis (encaixáveis?) nesse texto.
      Meu coração aquece um pouquinho toda vez que tu diz isso. Linda. Será mesmo? É uma honra...
      <3

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  4. esses textos de resposta tao elaborados me deixam meio acanhada de fazer o meu mas vamo la ne... queria começar com o famoso to passano mal, por motivos de NOSSA QUANTO SENTIMENTO TEM NESSE TEXTO. Na minha interpretação a pessoa não morreu nem fisica nem emocionalmente pra quem escreveu a carta, creio eu que tenha sido o contrario, imagino eu que ela tenho sido abandonada por esse amor e talvez por amar tanto (que interpretei pelo fato de ela continuar escrevendo cartas mesmo após a separação) tenha sufocado-o. Nao que ele nunca tenha a amado, pois no texto retrada planos e certa reciprocidade do casal, mas que talvez ele tenha seguido em frente e ela nao conseguiu superar. Ademais, acho que o título "como salvar uma vida" se remete à isso de escrever as cartas pro seu amor pra meio que salvar a vida que eles teriam juntos, nao deixar o que ela sente ou os planos que eles fizeram juntos se esvaírem e morrerem, logo, ela escreve as cartas como se contasse pra ele todos os dias o que ela vive, ou o que eles estariam vivendo juntos nessa vida que "deveria" ser a deleS.
    Perdao pelas palavras que demonstram incerteza ne mas é tudo advindo do meu achismo de qual a historia por tras desse texto, digo, carta. Debee tu eh topzera amo ler tudo que tu escreve, é sempre muito cheio de paixao, nao so pelo que tu escreve mas pelo ato de escrever mesmo, beijos de luz. Miryan.

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    1. Ca ra ca, Miry!!! Tua interpretação foi super completa e coesa (oi, redação? Geni na veia), eu amei. É exatamente uma das interpretações que passou pela minha mente. Ela escreve pra manter alguma coisa viva. Não é o que ela queria, mas é o que ela consegue fazer. Vou logo me parar por aqui, senão escrevo um livro só num comentário!
      Mas a verdade é que nem eu sei (se ficou parecendo que eu sabia). A personagem foi se desenvolvendo por conta própria e, no final, fiquei sem saber qual das duas interpretações seria a "real". Pensar nele como morto de fato dá mais peso/base pro estado de delírio dela e deixa mais dramático, já que ela chegaria a até sugerir que pensou em se matar ("Até quis te seguir da última vez, mas não pude. Não tive coragem"). Mas confesso que ambas as situações me deixam de coração partido.
      Obrigada, mesmo mesmo. <3

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